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Polícia do RJ se recusa a resgatar caminhão roubado que foi deixado em favela a 200 metros de batalhão da PM

Caminhão roubado na Avenida Brasil foi deixado em terreno dentro da Maré a 200m de batalhão da PM — Foto: TV Globo

 Motorista foi assaltado na sexta-feira (21) e chegou a localizar o veículo em um terreno dentro da favela Nova Holanda, na Maré, mas teve medo de retirá-lo de lá. Polícia alega estar proibida pela Justiça de fazer operações em comunidades. 

(Guilherme Peixoto / G1 - RJ1) Uma empresa está há cinco dias implorando para a polícia do Rio de Janeiro recuperar um caminhão roubado que foi abandonado pelos criminosos a 200 metros do 22º Batalhão da Polícia Militar (Maré), às margens da Linha Vermelha, na Zona Norte da capital. A PM alega que não pode realizar operações na comunidade. 

 O caminhão estava carregado de creme de leite. Ele saiu de Campos, no Norte Fluminense, e foi parado por assaltantes na Avenida Brasil por volta das 6h30 do dia 21 de agosto, uma sexta-feira. O veículo foi levado pelos criminosos para a favela Nova Holanda, no Complexo da Maré. 




 O motorista do caminhão registrou o roubo na 21ª DP (Bonsucessso). Além de detalhar o ocorrido, ele deu a localização exata onde estava o caminhão, conforme indicação do GPS. Ele também procurou a PM para pedir ajuda, mas sem sucesso. 

 Segundo o motorista, os policiais disseram que não poderiam entrar na favela para recuperar o caminhão, que foi deixado entre duas escolas, a 200 metros do batalhão da Maré. Juntamente com outros funcionários da empresa, ele chegou a entrar na favela à noite, encontrou o veículo, mas teve medo de tirá-lo de lá. 

 “Mesmo achando o caminhão, tirando foto, filmando, eles não tiveram vontade, sei lá, não sei o que acontece, que não poderiam buscar o caminhão. Nós entramos lá sozinhos e conseguimos filmar o caminhão, e eles com blindado, com tudo, não querem entrar”, disse o motorista, que não quis se identificar. 

 Outro caminhão estacionado no mesmo local também consta como roubado. Testemunhas disseram o terreno onde os veículos estão funciona como uma espécie de garagem do tráfico, para onde os bandidos levam as cargas roubadas e descarregam para caminhões menores, pra venderem pela cidade. 

 “É uma falta de respeito com o cidadão, que paga seus impostos certinhos, tem seus caminhões pagando prestação e acontece uma coisa dessas”, lamentou o motorista. 

 Em entrevista ao RJ1, o porta-voz da PM fluminense, coronel Mauro Fliess, alegou que a polícia está proibida, por deliberação do Supremo Tribunal Federal (STF) de realizar operações policiais em comunidade. Destacou que "estamos diante de um crime patrimonial", ou seja, não há vida em perigo, e que a Maré é uma região muito perigosa para qualquer intervenção policial. 

É importante destacar que esse batalhão não é localizado na Avenida Atlântica, uma vizinhança tranquila, onde a gente pode circular com tranquilidade. Ele é vizinho de uma das comunidades mais perigosas do Rio de Janeiro, onde tem uma guerra de facções. É um ambiente muito hostil onde a ação da polícia é fortemente rechaçada por criminosos locais. No momento, inclusive, estamos impedidos de usar aeronaves. ”, disse o coronel. 

 Questionado se o caminhão não será recuperado pela polícia, o oficial da PM disse que corporação precisa, primeiro, se planejar para a ação garantindo a segurança física dos policiais e da comunidade local. 

 “Tão logo a corporação tenha capacidade operacional de planejar, de reunir dados de inteligência, e conseguir chegar àquele local com segurança, com a convicção de que estarão minimizados os riscos de vida do policial e das pessoas de bem naquele local, iremos, sim, realizar essa operação”, destacou. 

 Em nota, a Polícia Civil disse que "o local fica entre escolas e creches, e sofre influência de facções criminosas rivais, cujos traficantes fortemente armados, quase que diariamente, entram em confronto pela disputa territorial" (confira íntegra da nota no fim da reportagem). 

Comando do tráfico 

 Segundo a polícia, o complexo da Maré abriga uma das maiores quadrilhas de roubos de carga no Rio. O chefe do tráfico na região é o traficante Rodrigo da Silva Caetano, conhecido como Motoboy. 

 Na semana passada, a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense indiciou Rodrigo Caetano pela morte de um vigilante durante um roubo em um centro de distribuição de um supermercado, em Duque de Caxias. 

Íntegra da nota da Polícia Civil 

 A Secretaria de Estado de Polícia Civil (Sepol) informa que o caminhão que teria sido roubado foi localizado na divisa entre as comunidades Nova Holanda e Baixa do Sapateiro, ambas no Complexo da Maré. O local fica entre escolas e creches, e sofre influência de facções criminosas rivais, cujos traficantes fortemente armados, quase que diariamente, entram em confronto pela disputa territorial. 

 Levantamento da Subsecretaria de Planejamento e Integração Operacional aponta que o Complexo da Maré é uma das regiões do estado que concentra o maior número de traficantes e armas de grosso calibre. Os criminsosos portam inclusive fuzis de alto poder de destruição, como o .50, conforme matéria veiculada em reportagem do dia 14/08 deste ano, em que um traficante, em um baile funk, carregava uma arma deste mesmo calibre. 

 A Sepol esclarece ainda que qualquer incursão da polícia no Complexo da Maré somente é possível com o emprego de veículos blindados e apoio de helicópteros para resguardar a integridade física dos policiais e dos moradores. Decisões judiciais locais e do STF impedem a circulação e estacionamento de veículos blindados próximos a escolas, creches e hospitais, bem como vedam o sobrevoo de aeronaves num raio de dois quilômetros de tais estabelecimentos. Além disso, determinam que operações policiais somente podem ser realizadas em hipóteses absolutamente excepcionais. 

 O caminhão mostrado na matéria estaria muito próximo a escolas. A Polícia Civil respeita e cumpre as decisões judiciais e, por conta disso, está impedida de operar na região. 


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